12
Liberdade e Responsabilidade Reexaminadas

 Os PROBLEMAS da liberdade e responsabilidade so fundamentais de inmeras maneiras, na psicoterapia e no 
aconselhamento. Mas, em anos recentes, encontramo-nos colhidos numa srie de dilemas prementes e crticos a respeito 
dessas questes. Os dilemas so parte integrante da mudana e transio radical de valores nas ltimas trs ou quatro 
dcadas, na cultura ocidental e, em particular, na Amrica. No  por mero acidente,  claro, que tenham sido exatamente 
essas dcadas aquelas em que tambm o aconselhamento, a psicoterapia e a psicanlise passaram a desempenhar papis to 
importantes em nossa sociedade. Pois , precisamente, o colapso e a transio radical de valores numa sociedade, fazendo 
com que os indivduos nessa sociedade soobrem em mares tempestuosos sem ncoras slidas ou mesmo bias salva-vidas 
e faris em que possam confiar, que tornam to necessrias as profisses de ajudar os indivduos. 
Numerosas solues surgiram para os dilemas que enfrentamos no campo da liberdade e da responsabilidade. Desejo 
citar algumas dessas solues que eu considero inadequadas e, depois, abordarei o que, segundo espero, ser um exame mais 
profundo dos problemas da liberdade e responsabilidade. 
Uma soluo inadequada foi a suposio, popular h unia dcada ou duas, de que a nossa tarefa no aconselhamento 
psicolgico e na psicoterapia consiste, simplesmente, em libertar a pessoa e, portanto, os valores sustentados pelo 
terapeuta e a sociedade no teriam qualquer papel no processo. Tal suposio foi estimulada e racionalizada pela ento 
popular definio de sade mental como liberdade da ansiedade. Os terapeutas mais influenciados por essa suposio 
adotaram como dogma nunca formular um juzo moral e consideraram que a culpa era sempre neurtica e, portanto, um 
sentimento que deveria ser sempre eliminado atravs do aconselhamento e da psicoterapia. Lembro-me de que, nos meus 
dias de estudante de Psicanlise, nos comeos da dcada de 1940, era argumentado por competentes e experimentados 
psicanalistas que se o paciente era um gangster ou um membro responsvel da sociedade no era assunto que lhes 
dissesse respeito  a tarefa do analista era, apenas, ajud-lo a adquirir liberdade para fazer melhor o que desejava fazer, 
fosse o que fosse. 
Provavelmente, a maioria dos terapeutas tinha suficiente senso comum e humanidade para nunca seguir tal pressuposto em 
todas as suas implicaes. Mas os efeitos sutis da suposio de que os valores no interessam foram, em minha opinio, 
muito nocivos e, em parte, responsveis pelas reaes ulteriores contra a psicanlise e o aconselhamento. Um efeito 
pernicioso foi a implicao de que a sexualidade era, como disse Kinsey, uma questo de descarga num objeto sexual. 
O acento sobre a promiscuidade sexual  que se converteu, paradoxalmente, num novo dogma, qual seja o de que para 
sermos saudveis tnhamos de ser, no plano sexual, completamente tolerantes  redundou em nova ansiedade e insegurana, 
em toda a rea do comportamento sexual entre os nossos contemporneos. A pletora de casamentos prematuros que temos 
testemunhado entre estudantes universitrios, nas ltimas dcadas parece-me ser, pelo menos em parte, uma reao  
insegurana, ansiedade e solido implcitas na promiscuidade sexual. Pois o pressuposto de plena liberdade que estamos 
descrevendo separa e aliena, realmente, a pessoa do seu mundo, remove qualquer estrutura que tinha para dentro dela ou 
contra ela atuar e deixa-a sem diretrizes numa existncia solitria e irreal. 
Os erros implcitos na suposic5o da plena liberdade foram no s o de terem ocasionado um recrudescimento da 
ansiedade entre consulentes e pacientes mas tambm o de serem sutilmente desonestos. Pois por muito que o terapeuta ou 
o conselheiro protestem que no pressupem valores em sua prtica, o paciente 
176 
ou consulente sabe, mesmo que no se atreva a expressar esse conhecimento, que tal protesto no  
verdadeiro; e que o terapeuta est insuflando sub-repticiamente os seus prprios valores, de um modo tanto 
mais pernicioso pelo prprio fato de af ir- mar que no os admite, 
Uma outra soluo proposta para o nosso dilema surgiu, na ltima dcada, como reao  acima descrita. 
Trata-se da desconfiana da liberdade que e faz presente, em considervel medida, nas discusses 
psicolgicas e psiquitricas que nos cercam nos dias atuais,  uma supernfase sobre a responsabilidade, 
mas expressa numa forma de controle moral e social da outra pessoa. As tendncias atuais para o conformismo 
e as tremendas presses no sentido da padronizao, que inevitavelmente acompanham a televiso e a 
comunicao de massa, deram impulso a essa tendncia para o controle. William 11. Whyte, em seu livro 
Organizacian Men,  muito preciso em suas advertncias enrgicas aos psiclogos e psiquiatras nesses 
pontos. Ele afirma sucintamente que os inimigos do homem moderno podero ser, no fim de contas, grupos 
de terapeutas de aspecto suave e benigno que... estejam fazendo o que fizeram para ajudar voc. Refere-se ele 
 inevitvel tendncia para usar a tica social do nosso particular perodo histrico. E, assim, o prprio 
processo de ajudar as pessoas poder, realmente, torn-las ainda mais conformistas e destruir a 
individualidade. 
Muitos outros crticos sociais sublinharam, recentemente, que estamos presenciando o nascimento, na 
psiquiatria e psicologia, de um novo puritanismo e uma nova nfase sobre o controle do comportamento. 
At h pouco tempo, o novo puritanismo era sobremodo evidente na psiquiatria mas, agora, a nfase sobre o 
moralismo promana dos psiclogos no campo teraputico. Enquanto que uma pletora de livros, sados das 
editoras psiquitricas h duas dcadas, nos intimavam a libertar as nossas tenses sexuais e a 
expressarmo-nos plenamente, os livros dos ltimos cinco anos, pelo contrrio, dizem-nos que O divrcio 
no resolve e avisam-nos que a monogamia  o novo dogma da cincia. O novo moralismo entre psiclogos 
 ilustrado pelos trabalhos teraputicos de Hobart Mowrer e Perry London, e pelo que se convencionou 
denominar terapia da realidade (reality-therapy). 1 Como indicarei adiante, creio que tanto a 
1 Ver a crtica de homas Szasz ao livro Reality Theraprg, de William Glasser. O Dr. Szasz sublinha que o Dr. 
Giasser crismou tudo o que  hoje chamada doena mental de irresponsabilidade. Logo, como no se faz 
distino entre os padres morais do paciente e os do terapeuta, est preparado o campo para que soluo de 
exagerada liberdade como a identificao da terapia e do aconselhamento com os controles sociais e morais da sociedade sao 
inadequadas. 
Assim como o novo puritanismo est representado na psiquiatria e psicoterapia, a nova nfase sobre o controle da mente 
e da personalidade, como uma negao da liberdade da pessoa, talvez esteja mais presente na psicologia acadmica. Esta 
fase do dilema  significativamente ilustrada por um debate entre CarI Rogers e E. F. Skinner, que desejo citar. A respeito 
da mais extrema forma disso no condicionamento operante de Skinner, Rogers escreveu: 
 par do desenvolvimento da tecnologia, desenvolveu-se uma fiIosof ia subjacente de rgido determinismo, tal como se 
ilustra por uma breve controvrsia que tive com o Professor B. F. Skinner, de Harvard, numa recente conferncia. Uma 
comunicao apresentada pelo Dr. Skinner levou-me a dirigir-lhe esses comentrios. 
Pelo que ouvi o Ur. Skinner dizer,  sua opinio que, embora ele pudesse ter pensado que a deciso de vir a esta reunio e 
pudesse ter pensado que tinha um propsito ao fazer o seu discurso, tais pensamentos so, na realidade, ilusrios. O que 
realmente ele fez foi uma seqncia de sinais no papel e emitiu certos sons aqui, simplesmente porque a sua disposio 
gentica e o seu meio passado tinham condicionado operantemente o seu comportamento de uma tal forma que ele era 
recompensado por emitir esses sons, e que uma pessoa no intervm nisso. De fato, se entendi corretamente o seu 
pensamento, de um ponto de vista estritamente cientfico, o 1. Skinner como pessoa no existe. Em sua rplica, o Or. 
Skinner disse que no entraria na questo de saber se tinha ou no qualquer escolha no assunto (presumivelmente porque 
toda a questo era ilusria), mas declarou: Aceito, de fato, a sua caracterizao da minha prpria presena aqui. No 
preciso desenvolver o ponto de que, para o i. Skinner, o conceito de aprender a ser livre no teria significado algum 2 
os valores do terapeuta sejam, na pior das hipteses, impostos ao paciente e, na melhor das hipteses, que os costumes da 
sociedade sejam incutidos ao paciente sob o rtulo de ajustamento e sade mental. Eu sei que a terapia do Ur. Glasser 
foi elaborada originalmente em sua funo de psiquiatra numa instituio para moas delinquentes. Isto faz sentido: a 
personalidade psicoptica  o nico tipo clnico em que, para comear, se concorda que no existe conscincia e que s 
pode ser alcanada se no paciente se desenvolve algum sentido social. Mas estender esse tipo de terapia a todas as espcies 
de pacientes  confundir irremediavelmente todo o problema da neurose e doena mental e fazer do terapeuta um agente da 
sociedade para a destruio da autonomia, liberdade, responsabilidade interna e paixo do paciente. 
 
178 
Poderamos,  claro, multiplicar os nossos exemplos ilustrativos um sem-nmero de vezes para corroborar a 
tese de que as questes de liberdade e responsabilidade, escolha e determinismo so centrais e crticas na 
psicologia americana. 
DESEJO iniciar o meu reexame da liberdade e responsabilidade considerando essa nfase atual sobre o 
controle. As frases controle da mente e da personalidade, que usarei de modo mais ou menos sinnimo 
neste exame, suscitam questes perturbadoras. Controle implica o controle por algum ou alguma coisa. Quem 
controlaria a mente? A prpria pessoa? Nesse caso, algum aspecto da sua mente ou eu estaria efetuando o 
controle. Mas este ponto de vista no 6 aceitvel, porquanto nos encontraramos, nesse caso, adotando uma 
viso fragmentada do eu que difIcilmente  sustentvel e apenas serve para tornar mais confuso O nosso 
problema. Ou pretendemos dizer que a sociedade controla a mente? Mas a sociedade  simplesmente formada 
por todos ns, pessoas cujas mentes devem, supostamente, ser controladas. 
Significar a frase que algum grupo especial  psiquiatras, psiclogos ou outros cientistas  controlar a mente, 
ou seja, as mentes de outras pessoas? Lamentavelmente, penso ser essa a suposio subconsciente e no 
premeditada de muita gente que usa a frase, notadamente, que o grupo a que elas pertencem exercer o 
controle, como se ns soubssemos como a mente de outras pessoas deve ser controlada. Recentemente, 
participei numa conferncia de emergncia de psiquiatras e psiclogos sobre o problema premente da guerra e 
paz. Muitos dos trabalhos apresentados na conferncia propuseram que psiquiatras e psiclogos fossem 
enviados s zonas conturbadas do mundo, entrevistassem diplomatas em todo o mundo e relatassem aos seus 
respectivos departamentos de Estado ou chancelarias as suas concluses, para que os estadistas com 
tendncias paranides e graves desajustamentos fossem retirados de seus postos. A dificuldade com esse 
plano  que tais diagnsticos, se assim podem ser chamados, pressupem sempre alguns critrios e metas 
como base para a formulao de juzos. Felizmente, parece no haver possibilidade alguma de que qualquer 
chancelaria venha jamais a permitir que qualquer grupo se arrogue esse gnero de controle. Eu disse felizmente 
porque no h razo alguma para crer que os juzos, com respeito s metas da vida, sejam melhores entre os 
psiquiatras e psiclogos, como um grupo, do que entre filsofos ou os prprios estadistas, ou 
telogos, escritores e artistas. 
Notamos que a palavra metas se insinuou nestas consideraes.  impossvel mant-la de fora, pois controle 
implica no s o controle por alguma coisa mas tambm para alguma coisa. Para que fins, ou seja, na base de 
que valores, a mente ser controlada e para que metas esse controle ser dirigido? Esta desconcertante 
questo foi, no passado, geralmente descartada nas discusses psicolgicas com a resposta categrica: os 
cientistas lidam unicamente com meios, no com fins. Mas isso no  uma atitude sumamente dbia e 
possivelmente perigosa? E no ser essa separao de meios e fins at uma parte da razo para o nosso transe, 
na civilizao do sculo XX, a saber, que possumos to poderosos meios de controlar a natureza e ns 
prprios  drogas, energia atmica etc.  mas no mantivemos um ritmo idntico na anlise dos fins para que 
estamos controlando? 
Ou, se aceitarmos a proposta feita, algumas vezes, em conferncias psicolgicas, de que os nossos 
computadores podem fixar as nossas metas, os nossos tcnicos determinar as nossas diretrizes polticas, 
estaremos cometendo, na minha opinio, o mais srio de todos os erros. Pois estamos abdicando em face da 
nossa carncia de metas e valores. A nica coisa que os computadores no podem dizer-nos  quais devem ser 
as nossas metas. Hoje, quando ns e todas as pessoas sensveis contemporneas esto to confusas e 
ansiosas, no surpreender que sejamos propensos a abdicar em favor da mquina. A nossa tendncia , cada 
vez mais, para formular apenas as perguntas que a mquina possa responder; para ensinar apenas, cada vez 
mais, as coisas que a mquina pode ensinar; e para limitar a nossa pesquisa ao trabalho quantitativo que a 
mquina pode fazer. Assim,  inevitvel que surja uma tendncia real e inexorvel para fazer a nossa imagem do 
homem  imagem e semelhana da prpria mquina pela qual o estudamos e controlamos. 
Devemos procurar, sugiro eu, uma nova e mais profunda compreenso da liberdade que se sustenha mesmo 
num mundo em que existem vastas e esmagadoras presses para o controle. Para faz-lo, devemos comear, em 
minha opinio, com a questo de quais sejam as caractersticas que distinguem esse ser, o homem, a quem 
estamos procurando compreender. 
UMA DISTINTA caracterstica central, como vimos,  a capacidade do homem para estar cnscio de si mesmo 
como tendo um uni- 
181 
verso e em relao com ele. Ora, avaliar as conseqncias futuras, a longo prazo, de seus atos  o que tambm 
vimos ser uma capacidade do homem   um ato social e implica, inevitavelmente, juzos de valor. Logo, os 
conceitos de esprito e personalidade implicam o desenvolvimento distintamente histrico- social que 
caracteriza os seres humanos. O homem, como indicamos num captulo prvio, no  meramente impelido s 
cegas pela marcha da Histria, no  apenas o produto da Histria (como todos os animais so); ele tambm 
possui a capacidade de autoconscincia de sua histria. Pode exercer seletividade em relao  Histria, pode 
adaptar-se a partes dela, pode mudar outras partes e, dentro de limites, moldar a Histria em direes por ele 
escolhidas. Essa capacidade para transcender a situao imediata e introduzir a determinante temporal na 
aprendizagem confere ao comportamento humano a sua flexibilidade e liberdade caractersticas. 
Eis que verificamos que, ao definirmos esprito e personalidade, falamos tambm sobre liberdade. Pois no 6 a 
capacidade do homem para ser cnscio de si prprio como o indivduo que experimenta, realmente, tambm a 
base psicolgica da liberdade humana? Hegel expressou este ponto numa frase poderosa: A histria do 
mundo no  outra coisa seno o progresso da conscincia de liberdade. 
Os dados que obtemos em nosso trabalho com pacientes, em psicoterapia, parecem corroborar claramente a 
minha tese. Quando as pessoas recorrem  terapia, elas descrevem-se, tipicamente, como empurradas, 
incapazes de saber ou escolher o que querem, e experimentam vrios graus de insatisfao, infelicidade, 
conflito e desespero. O que apuramos, ao comear trabalhando com elas,  que bloquearam vastas reas de 
conscientizao, so incapazes de sentir ou de ter conscincia do que os seus sentimentos significam em 
relao ao mundo. Podem pensar que sentem amor quando, na realidade, apenas sentem desejo sexual; ou 
pensam que sentem desejo sexual quando o que realmente desejam  ser acalentados ao seio materno. Com 
freqncia, dizem de uma forma ou de outra: Eu no sei o que sinto; no sei quem sou. Nos termos de Freud, 
reprimiram experincias e capacidades significativas de toda a sorte. Os resultados sintomticos so a vasta 
gama de conflitos, ansiedade, pnico e depresso. 
Assim, no incio da terapia, elas apresentam o quadro da  falta de liberdade, O progresso da terapia pode ser 
aferido em funo do aumento da capacidade do paciente para experimentar o fato de que ele  aquele que tem 
este mundo, que pode estar cnscio dele e movimentar-se nele. Por um lado, poderamos definir a sade mental 
como a capacidade de conscientizar o hiato entre o estimulo e a resposta, somada  capacidade de usar esse 
hiato construtivamente. Assim, a sade mental, em minha opinio, est no lado oposto do condicionamento 
e do controle. O progresso na terapia pode ser medido em funo do progresso da conscincia da 
liberdade. 
O eu implica o mundo e o mundo implica o eu; cada conceito  ou experincia  requer o outro. Ora, ao invs da 
suposio usual, eu e o mundo variamos juntos, para cima e para baixo, na escala; em termos gerais, quanto 
maior for a conscientizao do eu, maior a conscientizao do mundo e vice-versa. Os pacientes  beira da 
psicose revelaro, freqentemente, uma irreprimvel ansiedade que  fruto de um sentimento de pnico ante a 
possibilidade de perderem a conscincia de si prprios e, simultaneamente, do seu mundo. Perder o prprio eu 
 perder o prprio mundo e vice-versa. 
Essa relao inseparvel do eu e do mundo tambm implica responsabilidade. O termo significa responder, 
responder a. Por outras palavras, no posso tornar-me um eu exceto se estiver continuamente empenhado 
em responder ao mundo de que sou parte. 
O que  extraordinariamente interessante, neste ponto,  que o paciente caminha para a liberdade e 
responsabilidade em sua existncia  medida que se torna mais cnscio das experincias determinsticas em 
sua vida. Quer dizer,  medida que explora e assimila como foi rejeitado, ou superprotegido, ou detestado como 
criana, como  impulsionado por suas necessidades corporais reprimidas, como a sua histria pessoal como 
membro de um grupo minoritrio, digamos, condiciona o seu desenvolvimento, e mesmo  medida que se torna 
mais cnscio de ser uni nembro da cultura ocidental num determinado momento traumtico da evoluo 
histrica dessa sociedade, o paciente descobre que a sua margem de liberdade se amplia proporcional- mente. 
Ao tornar-se mais cnscio das infinitas foras deterrninsticas em sua vida, ele torna-se mais livre. 
As implicaes deste ponto so muito significativas. Liberdade no , pois, o oposto de determinismo. 
Liberdade  a capacidade do indivduo para saber que ele  um ser determinado; para fazer uma pausa entre o 
estmulo e a resposta e, assim,  
182 
lanar o seu peso, por muito leve que seja, do lado de urna resposta particular entre muitas respostas 
possveis. 
Assim, liberdade tambm no  anarquia: os beatniks so protesto simblico contra a aridez da nossa 
sociedade mecnica, no uma expresso de liberdade. A liberdade nunca pode ser separada da 
responsabilidade. 
Passemos agora a uma outra fonte de dados que se relaciona com o nosso problema. Esses dados so 
dramticos e expressivos mas tambm muito importantes: as experincias de indivduos em campos de 
prisioneiros e de concentrao. Poder-se-ia pensar que falar sobre conscincia da liberdade ex tais lugares 
de terrvel caricatura da dignidade humana  puro sentimentalismo. Mas achamos justamente que  o caso 
oposto. 
Christopher Burney, um jovem oficial do Servio Secreto britnico, foi lanado na retaguarda das linhas 
inimigas durante a II Guerra Mundial e capturado pelos alemes. Foi colocado em priso solitria, sem um livro, 
lpis ou folha de papel, durante dezoito meses. Em sua cela de dois por dois metros, Burney decidiu que 
recapitularia mentalmente, cada dia, lio aps lio, tudo o que ele estudara no colgio e na universidade. 
Resolveu teoremas de geometria, analisou o pensamento de Espinosa e outros filsofos, resumiu mentalmente 
a literatura que havia lido, e assim por diante. Em seu livro Solitary Confinemeti!, Burney demonstra como 
essa liberdade de esprito, como lhe chamou, o manteve lcido durante dezoito meses de solitria e 
possibilitou a sua sobrevivncia. 
Dos horrores do campo de concentrao de Dachau, o Dr. Bruno Bettleheim relata que aprendeu uma lio 
semelhante. Quando foi jogado nesse campo, BettLeheini estava demasiado fraco para ingerir alimentos. Mas 
um velho prisioneiro, que j estava internado em Dachau h quatro anos, disse-lhe: 
Escute aqui,  bom que voc se decida: voc quer viver ou quer morrer? Se tanto lhe d, no coma essa 
porcaria. Mas se quiser viver, s h um caminho: decida-se a comer sempre e tudo o que puder, por muito 
repugnante que seja. Sempre que tiver unia oportunidade, defeque, para ter a certeza de que o seu corpo 
funciona. E aempre que tiver uni minute, no fique tagarelando; leia mentalmente qualquer coisa ou ento 
deite-se e durma. 
Bettleheirn prossegue dizendo: O que estava implcito era a necessidade, para sobreviver, de conquistar, 
contra as maiores dificuldades, algumas reas da liberdade de ao e de pensamento, por muito insignificantes 
que fossem. Em seu livro, The Jnfornied lleart, Bettleheim conclui que, nas piores circunstncias,  o 
indivduo deve encontrar e apegar-se ao seu direito de saber e atuar, de preservar a sua conscincia da 
liberdade, se quiser sobreviver. 
DESEJ0 AGORA EXTRAIR destas consideraes alguns princpios relativos s bases psicolgicas da liberdade. 
Primeiro, a liberdade  uma qualidade de ao do eu centrado. Indicamos acima que no faz sentido algum 
falar de parte da mente ou do eu controlando o resto da mente. Nem faz sentido falar, como os nossos pais 
vitorianos, da vontade controladora da mente ou, como fazem os nossos colegas freudianos, cio ego 
como sede da liberdade e da autonomia. David Rappaport escreveu um ensaio intitulado The Autonomy of 
the Ego como parte dos recentes desenvolvimentos no freudianismo que procuram incluir uma certa margem 
de liberdade. Jung tem um captulo, em um de seus livros, intitulado A Autonomia (ou Liberdade) do 1- 
consciente. Ou, na esteira de Wisdom of the Body, de Walter 
E. Cannon, algum poderia escrever sobre a autonomia do corpo. Cada um deles tem uma verdade parcial; 
mas no est tambm cada um fundamentalmente errado? Pois nem o ego, ou o inconsciente ou o corpo 
podem ser autnomos ou livres por si mesmos. 
Pela sua prpria natureza, a liberdade s pode ser localizada no eu atuando como totalidade, o eu centrado. 
A conscincia  a experincia do eu atuando desde o seu centro, O aparelho neuromuscular do indivduo, a sua 
passada experincia sentica, os seus sonhos e a infinidade de outros aspectos mais ou menos determinsticos 
da sua experincia como organismo vivo esto relacionados, em suas diversas maneiras, com esse ato 
centrado e s podem ser entendidos nesse relacionamento. 
Certamente, uma razo para a confuso sobre liberdade em Psicologia, e uma razo principal por que os 
estudos psicolgicos no passado confundiram e esconderam mais cio que revelaram o significado da 
liberdade, est precisamente no fato de que fragmentaram a pessoa, desmembrando-a em estmulos e 
respostas ou em id, ego e superego. Ns destrumos a sua centralidade por esses mtodos, mesmo antes 
de comearmos a estud-lo. Se quisermos descobrir alguma coisa sobre a liberdade psicolgica em nossas 
pesquisas, necessitaremos, obviamente, de alguma abordagem como a estatstica do indivduo em si, ou 
mtodo ideogrfico, de Gordon Allport. Ou, como eu proporia, 
Este conceito provm e foi desenvolvido na obra de Paul Tillich. 
185 
mtodos que se baseiem na coerncia interna do indivduo e na coeso do padro significativo, em contraste com a 
fragmentao. 
O segundo principio  que a liberdade envolve sempre responsabilidade sociaL Na nossa definio acima de 
esprito  a capacidade de transcender a situao imediata no tempo e no espao e de pensar em conseqncias a longo 
prazo  conclumos que era impossvel escapar  incluso do plo social da mente. Esprito subjetivo e mundo objetivo 
so correlatos inseparveis. 
Este princpio acarreta o dos limites da liberdade. Liberdade no  licenciosidade nem, simplesmente, ff fazer o que nos 
apetece. Com efeito, a vida ao sabor dos caprichos ou da digesto de cada um , num certo sentido, o oposto exato do eu 
centrado de que estivemos falando. A liberdade  limitada pelo fato de que o eu sempre existe num mundo (uma sociedade, 
uma cultura) e tem uma relao dialtica com esse mundo. Abram Kardiner assinalou, em seu estudo de Plainville. 
U.S.A., que a populao dessa pequena cidade do Centro-Oeste subscrevia, em sua grande parte, o credo americano da 
mobilidade vertical e acreditava que um homem pode se tornar tudo o que quiser. Na verdade, as oportunidades eram muito 
limitadas para essa gente mesmo quando safa para outras cidades. O erro no credo de Plainville, como na maioria das 
idias popularizadas sobre liberdade,  que so exteriorizadas  vem o eu atuando no mundo, em vez do eu existindo num 
relacionamento dialtico com o mundo. 
A liberdade de um ser humano  limitada pelo seu corpo, pela doena, pelo fato de que morre, pela sua capacidade de 
inteligncia, pelos controles sociais, ad infinitum. Bettleheim no podia mudar a desumanidade do campo de concentrao 
mas pde tornar-se cnscio de que era aquele que estava suportando essa desumanidade; e, por esse motivo, j estava 
parcialmente transcendendo-a. A capacidade de enfrentar conscientemente os limites, quer sejam brbaros ou normais, j  
um ato de liberdade e, em certa medida, liberta uma pessoa de um ressentimento automutilador. 
O nosso terceiro princpio  que a liberdade requer a capacidade de aceitar, suportar e viver construtivamente 
com a ansiedade. Refiro-me,  claro,  ansiedade normal que todos ns experimentamos a cada passo em nosso 
crescimento psicolgico, assim como neste conturbado mundo contemporneo. J acredito h alguns anos que a definio 
popular de sade mental como liberdade da ansiedade est errada. Ela favoreceu as tendncias do indivduo para abdicar 
da sua originalidade, assumir uma colorao protetora e conformar-se, na esperana de ganhar paz de esprito. Essa 
nfase sobre a liberdade da ansiedade tendeu, realmente, para minar a liberdade. 
Todos ns somos a favor, certamente, da liberdade da ansiedade neurtica  o tipo de ansiedade que bloqueia a 
conscientizao das pessoas e gera nelas o pnico ou outras formas de conduta cega e destrutiva. Mas a ansiedade neurtica 
, simplesmente, o resultado a longo prazo da ansiedade normal no enfrentada. Quando o indivduo em desenvolvimento, 
por exemplo, enfrenta a crise do desmame, depois, numa fase ulterior, a separao dos pais ao ir para a escola e, ainda 
mais tarde, o aparecimento dos problemas sexuais da adolescncia, e descobre que no  capaz de fazer face  ansiedade 
envolvida mas necescita reprimi-la, ele iniciou a srie de eventos que resulta, em ltima instncia. em ansiedade neurtica. O 
mesmo se d com os adultos que enfrentam a iminncia de um4 guerra termonuclear; se reprimirmos a nossa ansiedade 
normal em face dessa terrvel possibilidade, desenvolveremos uma ansiedade neurtica, com todos os seus vrios sintomas. 
Ser livre significa enfrentar e suportar a ansiedade; fugir  ansiedade significa, automaticamente, abdicar da nossa liberdade. 
Ao longo de toda a Histria, os demagogos tm usado a segunda estratgia  a sujeio de pessoas a uma contnua ansiedade 
insuportvel  como mtodo de for-las a renunciar  sua liberdade. As pessoas podem aceitar ento uma escravatura 
virtual, na esperana de se livrarem da ansiedade. 
Cabe aqui uma advertncia sobre u uso de drogas para reduzir a ansiedade, O uso de tranqilizantes (exceto em casos em 
que a ansiedade do paciente  insuportvel, ou causa uma regresso destrutiva ou toma-o inacessvel a tratamento)  
altamente duvidoso. Devemos enfrentar o fato de que ao remover a ansiedade da pessoa, tambm lhe retiramos a sua 
oportunidade de aprender; retiramos-lhe alguns de seus recursos. A ansiedade  um sinal de conflito interno e enquanto 
houver conflito ser sempre possvel alguma resoluo num nvel superior da conscincia. A ansiedade  o nosso melhor 
mestre, disse Kierkegaard. Portanto, aquele que aprendeu corretamente a estar ansioso aprendeu a coisa mais 
importante. 
A liberdade  algo que se adquire com o crescimento. Discordo da afirmao simplista de que nascemos livres, exceto 
186 
em termos de potencialidade. Prefiro enfatizar o penetrante vislumbre de Goethe, no Fausto, que 
transcrevemos como epgrafe deste captulo. 
Descreverei agora a minha prpria imagem impressionista do homem livre. O homem livre est cnscio do seu 
direito de ter algum papel nas decises do seu grupo social ou nao que o afetem; ele concretiza essa 
conscientizao ratificando as decises ou, se discorda, lavrando o seu protesto para que se tome uma deciso 
melhor na prxima oportunidade O homem livre tem respeito pela autoridade racional, tanto a da Histria como 
a dos seus compatriotas que podem ter convices diferentes das dele prprio. O homem livre  responsvel,  
medida que pode pensar e atuar para o bem-estar a longo prazo do grupo. Tem amor prprio, como um 
indivduo de valor e dignidade  no sendo uma das fontes de menor importncia para essa dignidade o fato 
dele saber que  um homem livre.  capaz, se for necessrio, de manter-se sozinho, como Thoreau  disposto a 
ser uma minoria de um quando os princpios bsicos esto em jogo. E, talvez o mais importante de tudo em 
nossos dias, o homem livre  capaz de aceitar a ansiedade, inevitvel em nosso mundo abalado, e de dar a essa 
ansiedade um uso construtivo, como motivao para uma maior conscincia da liberdade. 
TERMINAREI O presente captulo assinalando como este reexame da liberdade e responsabilidade afeta o 
aconselhamento psicolgico. 
Primeiro, salientamos que a liberdade e responsabilidade sempre esto mutuamente implcitas e nunca podem 
ser separadas. Segundo, o nosso exame aponta os usos construtivos da ansiedade e, indiretamente, os usos 
construtivos da culpa e dos sentimentos de culpa no aconselhamento. A culpa  a experincia subjetiva 
decorrente de no termos assumido plena responsabilidade, isto , no termos correspondido as nossas 
prprias potencialidades ou as nossas potencialidades (por exemplo, no amor e na amizade) nos 
relacionamentos com outras pessoas ou grupos. O nosso exame da liberdade indica, entretanto, que no 
devemos, como terapeutas ou conselheiros, transferir a nossa culpa e os nossos juzos de valor para o 
consulente e paciente mas, pelo contrrio, esforarmo-nos por ajud-lo a manifestar e enfrentar a sua culpa e 
as implicaes e significado de que ela se reveste para ele. Sem dvida, a nossa finalidade  aliviar os 
sentimentos de culpa neurtica mas, tal como a ansiedade neurtica, a culpa neurtica  o resultado final de 
no se enfrentar a anterior culpa normal. Permitam-me afirmar, sem dar aqui as 
187 
razes que fundamentam a minha afirmao, que o confronto com a culpa normal liberta no paciente as suas 
capacidades de liberdade e as suas capacidades para assumir responsabilidade, 
Terceiro, as nossas consideraes acima apontam para o fato de que h valores pressupostos em todos 
pontos do processo de aconselhamento Necessitamos de ponderar, uma vez mais, o profundo significado dos 
valores que residem no mero fato de um relacionamento de aconselhamento  a estranha situao em que duas 
pessoas se sentam num gabinete e se dedicam, durante uma hora, aos problemas de uma delas, o consulente. 
Isto envolve indagar de novo, em nvel mais profundo, o significado daquilo a que os alemes chamam Milsein 
(ser com) e Buber chamou o relacionamento Eu-Tu. 
Quarto, o nosso exame tambm assinalou o fato de que h valores pressupostos em todos os passos que o 
consulente d no sentido da sua prpria integrao mas no no sentido de que os valores do conselheiro ou 
mesmo os valores da sociedade so transmitidos ou sutilmente insinuados como os nicos possveis ou os 
preferidos. O conselheiro poder ajudar o consulente a atingir melhor os seus prprios valores se admitir 
(embora isso no tenha que ser necessariamente verbalizado) que ele, o conselheiro, possui os seus prprios 
valores e no faz empenho algum em esconder o fato mas que no existe razo alguma para supor que esses 
valores sejam os mais significativos ou adequados para, o consulente. 
